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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Saudade

A noite pairava sobre minha cabeça e a Lua clareava-me em lucidez. Meus olhos cansados, eram incapazes de diferir o claro e o escuro, transgredido repentinamente entre o entrar e sair do apartamento. Eram tantas as idas e vindas do apartamento, que meus olhos ganharam uma outra percepção dos objetos e lugares, todos com uma profundidade que nunca ousei antes experimentá-la. Coloquei meus últimos pertences na mala e dei uma última olhada para dentro do apartamento, vazio, apenas o silêncio da madrugada abrigava-me com sua manta azul, o céu.

Seria mais uma noite, dentre tantas outras que se sucederam em minha vida, mas esta, carregava consigo, uma tentativa de eternizar, desesperadamente, o meu fascínio pela nova vida e seus mistérios ainda ocultos. Anos se passaram, mas ainda não tinha uma opinião sobre o que cercava-me e isso fascinava-me de sobremaneira. O que me é palpável e possível descrever, não sacia-me a fome, mas sim, o desejo de descobrir o que me é oculto. Aliás sempre fora assim, mas nunca havia percebido. Não sei se me cabe a palavra saudade, pois fora momentos demasiadamente vividos, e por isso, parte do passado. Agora resta-me uma vida, a minha, auto-suficiente e solitária! Acho que nunca havia pensado desta maneira...

Saudade é o que estou sentindo agora, saudade das coisas que não fiz. São tantas as coisas, as pessoas que deixei de conhecer, das conversas que nunca tive porque não compreendia o idioma... Mas aí me vem outra palavra que adoro pronunciar. Palavra que modifica o futuro porque faz-se nas metas e estas, nos objetivos... A esperança! A esperança é a mãe que nos embala nos momentos de desvarios, quando a descrença toma conta, quando as lágrimas fazem parte de uma outra face e nos transforma em tristes desilusões.

Por mais que eu lute contra meus inimigos, que construa pedra a pedra meu forte, tornando-o parte de mim, sempre lembrarei-me dos momentos de fraqueza que arruinaram as minhas esperanças, do verde campo que florescia após as noites de guerra, porque a guerra está encrustada na história dos homens, mas não na história da vida. E sendo assim, sempre há motivos para sorrir, de um novo recomeço... Entristeço... Novamente...

Voava-me em pensamentos sobre asfalto, margeando trajeto sobre areias. Comigo iam os quebra-mares, intensos, corriam ao meu lado.
As casas, do outro lado, deixavam-me, solitário.
E assim amanhecia mais um dia, junto à pressão no meu peito.

Embarquei-me em vôo solitário e dentro de mim havia muitos outros tristes, mas essa solidão mesclada com a saudade era maior, porque não havia para onde correr. Pequenos corredores de um apertado avião carregava-me, e outros 300 passageiros. E esse voar "embriagado" de dramin, parecia não ter fim. Meus olhos cansados há mais de 24 horas sem dormir. Minha bunda dormente sobre pequenos assentos me deixavam acordado. E era um vai-e-vem de aeromoças oferecendo a comida, a bebida, e eu não rejeitava! Estava prestes a chegar, em Frankfurt. E estava prestes a chegar, a chegar, a chegar... Em outro lugar.

E esse outro lugar estava-me tão distante. Parecia nunca chegar. Faltava-me forças para crer no que estava próximo. Olhava para o monitor onde mostrava a distância, horas de viajem e faltava muito ainda! Meus olhos estavam pregados na tela do monitor. E esse parecer interminável, enfim, chegara ao fim. Respirei profundamente o ar e consigo veio uma dor. "No fundo ainda tenho esperanças de retornar para o Japão!" Tudo aqui no Brasil me lembra o passado. Tudo que conquistei aqui não me conquista mais. Eu quero buscar novos ares. Respirar aquele ar, límpido, claro. Rever as "fofas" japas que ainda permeiam sob a minha cabeça. Aquela formalidade indispensável... Eu quero... Eu quero... Saudade!

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